A. Senge
Na estação de uma cidade holandesa havia um comboio, pronto para a partida. Dois estudantes vieram em desabalada corrida e saltaram num dos carros, carregando malas pesadas. Poucos minutos após, encontrava-se em animada palestra com um senhor muito alto, de meia-idade, que se achava no banco da frente, e que desde logo lhes granjeou a simpatia. Soube ele que ambos os jovens, ao começar o novo trimestre, pretendiam estudar em outra universidade, e acabavam de despedir-se de sua hospedeira.
Por muito tempo, disseram, tinham sido solicitamente hospedeiro por ela. Apenas achavam que era por demais piedosa. Ao despedirem-se dela, dera a cada um uma Bíblia de presente. O mais jovem tirou da pasta a Bíblia, e resmungou:
-Ora, que devo, afinal, fazer com isso? Deveria atirá-la pela janelinha?!
A fisionomia do senhor de idade anuviou-se.
–Não faça isso, moço! – Disse ele. –Isso lhe traria infelicidade, pode estar certo! Eu poderia contar-lhes a história de um homem que procedeu de maneira semelhante, e por um triz escapou de uma morte horrível. Não quero com isso dizer que Deus em todo o caos mande castigo como esse, mas de modo algum passará por alto um ato semelhante.
O mais velho dos moços perguntou, displicentemente:
-Que história é essa, à qual o senhor se referiu? Conhece esse homem?-
É de Amsterdam – respondeu o interpelado.
Naquela ocasião viajava como auxiliar do piloto, num navio mercante, na costa da América do Sul. Não se pode dizer que fosse homem mau, era apenas leviano. Além disso, bebia muito. Quando então seus camaradas ridicularizavam a fé, ele os acompanhava valentemente. Como motivo de seus ridículos muitas vezes lhe servia o cozinheiro de bordo. Era um indiano, homem forte e robusto, com o coração de criança. Chamavam-no José. Dizia-se que esse indiano havia se educado numa escola missionária. Não admirava que a tripulação zombasse dele...
Um dia achava-se o barco ancorado num porto das Índias Ocidentais. Passava-se de meio-dia, o navio havia terminado a descarga. No convés, parte do pessoal bebericava, enquanto observavam um tubarão, que perigosamente nadava por ali. Foi quando o auxiliar do piloto, já alegre com a bebida, teve um pensamento. Não recebera ele havia pouco, do dirigente de um ‘lar dos marinheiros’, uma Bíblia de presente? Naturalmente a aceitara, pois que outra coisa deveria fazer? Mas agora ela iria servir de alimento ao tubarão. Mais que depressa foi apanhá-la. Os companheiros de bebedeira saudaram com risadas o seu plano.
O carpinteiro de bordo arrumou até um pedaço de toucinho rançoso, para amarrá-lo com a Bíblia. Rindo, os homens estavam junto à amurada e acenavam para o tubarão. Mas este não lhes ligava. Aproximou-se vagarosamente, rodeou a isca como que desconfiado, e de novo se afastou. Risadas insolentes o seguiam.
-Ora vejam – gritou o primeiro maquinista – ele acha a Bíblia indigesta!Redobravam as caçoadas.De súbito, porém, aconteceu coisa imprevista. O auxiliar do piloto, que se inclinara demais sobre a amurada, perdeu o equilíbrio. Como uma pedra o bêbado caiu na água.Por um instante, profundo silêncio dominou a bordo. Emudeceram as blasfêmias. Então um grito de desespero atroou os ares. O homem caído na água apareceu à tona e nadou como um louco em direção da escada. O voraz tubarão já o descobrira e nadava em sua direção. Nada dera atenção alguma ao toucinho e ao Livro, mas aquela criatura viva, que se debatia como doido, parecia-lhe bom petisco.
Nesse instante surge o indiano, atraído pelos gritos. Notou as fisionomias contrafeitas dos que ali se achavam, e compreendeu imediatamente a situação. Já desde manhã cedo havia observado o tubarão. De um salto voltou para a cozinha, tomou um facão afiadíssimo, que pôs entre os dentes, e correu para a amurada. Viu o rosto angustiado do que se debatia na água e o tubarão que vinha deslizando em sua direção. No próximo segundo saltou por cima do gradil e lançou-se na água.O que aconteceu então, foi obra de poucos instantes. Desenrolou-se mais depressa do que se possa referir. O indiano mergulhou imediatamente e desapareceu sob a água. Como sombra aquele vulto corpulento avançou contra o tubarão. Este chegara a poucos metros de sua vítima. Começava já a virar-se de um lado, e tornou-se visível sua medonha dentadura – quando começou a girar violentamente sobre si mesmo, enquanto a água em volta se tingia de vermelho.
Um grito de incontida alegria rompeu da boca de dezessete marinheiros. Viram tudo: a faca mortífera se prendera na garganta do monstro, até o cabo. Este, assim ferido, fugiu precipitadamente. Junto ao costado do navio emergiu o indiano. Agarrou o náufrago, estarrecido de susto, e com ele nadou para a escada. Um minuto depois estavam a salvo, no convés.Então o homem se calou. Seus dois ouvintes estavam atentos.
-Maravilhoso! – exclamou o mais velho, entusiasmado.
–De certo o indiano já fizera vezes coisa semelhante...-
É possível – concordou o senhor. Existem pessoas que atacam o tubarão onde se encontra. Conheci dois deles. Um perdeu o braço esquerdo. Nosso indiano já tinha travado dois combates com eles, como viemos, a saber, depois.-sem duvida os marinheiros depois o festejaram muito...
-Efetivamente – volveu o interpelado, sorrindo.
–Tornou-se o herói do navio. Ninguém mais zombou de sua piedade. Aquele acontecimento fora uma pregação muda, mas impressionante, que o cozinheiro lhes fizera. Ninguém mais tolerou que alguém disse alguma coisa contra ele.
-De onde tirara aquele homem suas habilidades extraordinárias? – perguntou o mais moço. Creio que na escola missionária não se terá dado muita importância a performances esportivas!
-Já experimentei em minha vida – respondeu o interpelado – que o homem verdadeiramente crente em geral é capaz de realizar algo notável na vida, em vários setores. A comunhão íntima com Deus não impede as habilidades naturais. Ao contrario, ajuda a desenvolvê-las.
O estudante pôs-se meditativo por algum tempo. Afinal observou:
-O senhor nos relatou essa aventura tão vividamente, que estou para dizer que esteve presente. Porventura tomou parte no salvamento do naufrago?O rosto do narrador tornou-se sério.
-Não, caro jovem – disse ele vagarosamente e com ênfase. –Fui eu aquele que caiu de bordo. Agora o senhor acreditará, sem dúvida, que eu me achava autorizado a adverti-lo...
(Kraft und Licht, 16-7-1961).
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